Rio+20 uma falácia mal engendrada

Os meios de comunicação que estão cobrindo a Rio+20 não teriam como de outra forma esconder o descontentamento geral com o que se vê, não enquanto veículos de notícias, mas como sociedade mal fadada a um triste fim que poderia ser interrompido anos atrás, talvez agora, mas não se sabe se no futuro ainda teremos essa prerrogativa.

Guilherme Fiuza bem lembrou em sua coluna na Época que na conferência da Rio92, 20 anos atrás, o secretário-geral da Cúpula da Terra, Maurice Strong, afirmou “Esta é a nossa última chance de salvar o planeta”. Agora o secretário-geral da ONU, Ban-Ki-Moon, avisa que a Rio+20 é a “única oportunidade” de garantir um futuro sustentável. Assim como ele tenho medo do que dirão na Rio+40, que obviamente acontecerá como um megaevento destinado a gastar dinheiro de países do mundo todo para mandar suas comitivas passear no Brasil, e ficarem aqui entre festas no hotel e conversas de influência, para fazerem mais uma vez um maravilhoso nada!

Ah, eu estava falando da conferência do futuro, que… provavelmente será idêntica a essa que vemos acontecendo hoje, apenas por pura coincidência, claro! E eu virei a “mãe diná”!

Acompanhe a seguir o Manifesto do SEBRAE sobre a RIO+20

Mas porque será assim Fáimon? Está escrito nas estrelas?

Veja, quando se pretende resolver as questões, como invadir o Iraque, ou enviar ajuda humanitária para o Haiti, a “galera” da ONU se reúne para decidir se sim ou não uma proposta de ação encabeçada por alguma de suas agências ou algum(uns) dos países membros, o que está muito longe do que está acontecendo aqui na Rio+20.

O discurso dos preocupadíssimos mais de 130 países participantes é de que precisam decidir Quem financiará o desenvolvimento sustentável e com quanto dinheiro o fará. E alguns dos países mais poderosos do mundo como Alemanha e Inglaterra, não virão.

Nitidamente um discurso que demonstra uma postura como a de quem diz “isso daí que estamos sendo obrigados a discutir, eu não posso fazer e muito menos pagar! Quem que vai cuidar disso?” como se houvesse alguém com esse desprendimento todo em relação às suas reservas monetárias. Balela!

Vão tentar criar um espetáculo de enganação, onde ao final, se dizem frustrados por não ser possível chegar a um acordo mais benéfico e tudo continua praticamente como está. Tudo isso na expectativa de que a população mundial engula que o mundo ficará cada vez pior e que nada será feito a respeito.

Muito louvável a iniciativa do novo secretário executivo da Comissão Econômica da AfricaCarlos Lopes (da Guiné-Bissau), em imaginar que esta Rio+20 pode originar fundamentos para a constituição de “um novo contrato social para o século XXI” que combine crescimento econômico e garantias ambientais, que seria criado após a reunião pelas lideranças globais devidamente reconhecidas.

É só eu que sou ranzinza ou essa história de tecer o texto depois de que todos não estão mais ali para votar parece um conto de carochinha mesmo? Como disse, historicamente a ONU só delibera efetivamente para temas previamente propostos para aceitação ou negação.

Tendo todo esse cenário desfavorável, corroboram para o desastre da “insustentabilidade” a crise econômica que ainda se abate sobre os países de alto consumo e produção industrial, com essa variável inclusa você leitor é capaz de imaginar quem que irá financiar os sonhos da Rio+20?

E o Brasil? Como anfitrião do encontro, tendo tido em Lula e FHC fortes defensores das políticas de sustentabilidade no Mundo, teria condições de tentar liderar um resultado positivo?

Ao analisar essa hipótese, tenho pesar em minha alma política ao afirmar que infelizmente, não é o Brasil esse líder, que talvez nem exista. Pior é verificar os recentes retrocessos no segmento de liderança global pela sustentabilidade. Dilma Rousseff, apesar de constantemente ser considerada umas das 100 mulheres mais influentes do mundo, não avançou nestes anos de governo em nenhuma frente neste assunto de interesse mundial deixando-o para aparecer em seus discursos apenas nas vésperas da Rio+20.

Como se não bastasse isto, apesar de estar sob controle os níveis de desmatamento e queimadas nas nossas florestas, isto continua a acontecer, e ainda não somos capazes de enquanto Brasil, verificar índices de recuperação de matas originarias.

Ainda referente às nossas matas, O Novo Código Florestal é uma incógnita, e abre perigosos precedentes. Por exemplo, segundo o Blog do Planeta o governo do Amapá está lutando para acabar com uma emenda estranha que permite desmatar acima da média amazônia apenas no estado. A situação é bizarra. Segundo o artigo 12 no parágrafo 5o do novo Código Florestal, recentemente sancionado pela presidente Dilma Rousseff, nos estados com mais de 65% de áreas protegidas, a área de reserva legal obrigatória cai de 80% para 50% da propriedade, se houver Zoneamento Ecológico Econômico e aprovação do órgão estadual. O Amapá é o único estado nessa categoria.

A ONG Global Witness divulgará nesta terça-feira (19) um relatório sobre as mortes de ativistas ecológicos, e já podemos prever um desastre para o Brasil, haja vista casos como o de Nísio Gomes, líder do povo indígena Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, dos Guaranis chacinados em massa no Mato Grosso, o assassinato José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher, Maria do Espírito, no Pará, entre outros mais de 300 casos registrados. (cerca de 50% dos casos registrado em todo o Mundo)

Desta forma todos os avanços do Brasil na área da Sustentabilidade não são capazes de gabaritar o país à uma posição de liderança. Infelizmente nenhum país no mundo é capaz de assumir tal liderança, e ao menos que um líder “milongueiro” como nosso ex-presidente Lula apareça nessa conferência, esta será como uma gigante sem cabeça que cairá prostrada se mostrando inócua.

Confira abaixo vários avanços da tecnologia brasileira para a sustentabilidade:

Em contrapartida à todos esses contrassensos praticados, a Indústria brasileira avançou bastante no caminho rumo à sustentabilidade, aqui apesar da alta produção industrial, não temos cidades cobertas por fumaça como na China.

No setor Automotivo um automóvel fabricado hoje emite 28 vezes menos poluentes do que outro feito ha 30 anos, O Etanol começa a ser utilizado em aeronaves, e tem se mostrado menos poluente do que a gasolina, além de que o uso de água na produção de cada carro caiu quase 30%.

Por sua vez, o setor Elétrico e Eletrônico conseguiu o selo PROCEL, de eficiência energética para cerca de 3800 modelos e o Brasil já é capaz de produzir 90% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis (a média mundial é 18%)

Na Reciclagem, temos dados impressionantes, onde cerca de 98% do alumínio produzido é reciclado, Muitas indústrias aproveitam seus próprios dejetos industriais para produção de energia ou reaproveitamento de matéria prima, como na produção de cana de açucar e beneficiamento do açúcar, na indústria de cimento que utiliza pneus velhos como fonte de energia, e na construção civil que consegue dar outros fins para seus detritos e inova em técnicas que reduzem o uso de matéria prima.

Indústrias que utilizam árvores como matéria prima, já conseguem produzir sem desmatar ou a partir de florestas plantadas, além de usar biomassa como combustível, que não contribui para o aquecimento global.

Todavia ainda falta muito para poder representar algo que importe em liderança global para as soluções de sustentabilidade ao redor do mundo, em eventos da ONU como essa RIO+20.

Vídeo Institucional do Brasil para a RIO+20:

Consumo vs. Sustentabilidade

Mesmo não acreditando que a RIO+20 encontre acordos realmente vantajosos para o mundo, ainda acredito que as coisas podem melhorar, mas já está provado que pouca coisa será feita pelos governos e seus representantes e que os principais avanços se dão na medida que a sociedade pressiona as indústrias para uma mudança de atitude.

Novamente a premissa que norteia a criação do Semeador de Letras se mostra como a mais eficaz. A cultura e o conhecimento andam juntos rumo a um mundo melhor. Na medida que as sociedades entendem as vantagens de consumir produtos de produção sustentável, reciclados, retornáveis, e diminuir o uso de matéria-prima não renovável como os metais e o petróleo, e estão dispostas a inclusive pagar um pouco mais caro para impulsionar essa pratica de mercado, as indústrias se sentem pressionadas pela competitividade à adotar sistemas sustentáveis, ou compensatórios pelo uso desequilibrado de recursos naturais

Se a sociedade escolhe consumir itens saudáveis e sustentáveis, é isso que as empresas produzirão, sob risco de no contrário, perderem mercado até a falência.

Esse é um fenômeno que começa a acontecer no Brasil, e que já tem enorme quantidade de adeptos na América do Norte, e de pronto as empresas mudam seus produtos para atender a demanda mais vantajosa.

E na Europa? Essas idéias já estão associadas ao consumo?

Em muitas áreas sim, todavia, entre outros segmentos de mercado os EUA, Japão e a Europa são os maiores consumidores do mundo, especialmente de produtos total ou parcialmente descartáveis, o que é monstruosamente danoso para o mundo.

Será que os países ricos precisavam consumir tanto?

Para William Rees & Mathis Wackernagel, os criadores do conceito de Pegada Ecológica a resposta é um veemente NÃO! As Nações mais desenvolvidas precisam urgentemente reduzir a exploração de recursos naturais para equilibrar o uso destes no mundo e permitir que países emergentes cresçam e tenham condições de compor uma sociedade diferente e mais sustentável com estes.

“É preciso admitir a responsabilidade dos países ricos pelos danos que afetam a todos. Por causa deles, o nível do mar está subindo em países pobres que não tem condições de contornar os problemas. Isso é moralmente e eticamente irresponsável.” (William Rees)

Para quê mudar de televisão ou celular a cada modelo novo que é anunciado no mercado? Para quê construir cidades que dependem de transporte motorizado para locomoção? Porque construir cidades sobre rios? Porque limitar a altura dos prédios ao invés de estimular que sejam criados cada vez mais, tecnologias que possibilitem manter as pessoas sobre um menor espaço? Isso diminuiria custos de transmissão de energia, construção de estradas, calçadas, dispersão de serviços, uso de automóveis, etc.

“Cidades Mediterrâneas são bons modelos. Foram construídas muito antes dos carros e são compactas. Gastam menos energia e têm maior qualidade de vida.” (Mathis Wackernagel)

Como todas essas mudanças são lentas, se um dia vierem mesmo à ocorrer, o importante mesmo é urgentemente encontrar formas de diminuir o consumo de recursos naturais, cada um no seu microambiente, de forma a causar um impacto global, e forçar as estruturas produtivas a se adaptar a uma nova realidade de consumo.

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Republicado em: Semeador de Letras

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2 comentários em “Rio+20 uma falácia mal engendrada

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