Entendendo o que é Terceira Via

Diante de um acalorado debate de esquerda vs direita ressuscitado no Brasil, gostaria de perguntar ao leitor: os conceitos socialistas e os liberalistas já não se demonstraram falidos e incapazes de dar as respostas que a sociedade pede? Não é o caso de prestarmos mais atenção a um caminho do meio e conciliador?

Diante de tal desafio de pensamento, precisamos ressaltar o pensamento de Anthony Giddens, um renomado estudioso que escreveu o livro intitulado “Para além da esquerda e da direita” onde afirma que essa dicotomia maniqueísta está ultrapassada e propõe a “Terceira Via” como o meio do caminho entre a esquerda socialista e a direita liberal conservadora. Esse posicionamento influenciou muito o pensamento predominante no Partido Trabalhista Britânico, do ex-primeiro ministro Tony Blair, um dos maiores defensores mundiais dessa linha. Mas, antes vamos ver o que acontece e aconteceu com a dualidade em constante disputa:

– Liberalismo (neoliberalismo, conservadorismo, oligarquistas, republicanismo tradicional)

Não é desconhecido da sociedade que o liberalismo, por mais que tenha criado ao nosso tempo paradigmas como o da globalização, liberdade de imprensa, liberdade de ser proprietário de coisas, entre outros, não é o bom moço dos sistemas político-econômicos existentes, pois favorece e até certo ponto depende da concentração de capital que gera miséria do outro lado da moeda.

E como falar em liberdade para a parte da população que se encontra em situação de miséria? Liberdade para fazer o quê? Definhar em condições sub-humanas? Recorrer ao crime ou outras práticas moralmente degradantes? Parece haver um espaço muito restrito para a presença da dignidade humana nesse sistema, sempre sustentado por indignos invisíveis.

– Socialismo (comunismo, progressismo, cidadanismo, social-democracia trabalhista)

Por outro lado o socialismo que propõe o valor da igualdade absoluta e que responsabiliza a propriedade privada pela origem das desigualdades sociais, dando ao fim ao Estado o poder de igualizar as condições de vida, nas experiências soviética, alemã, chinesa, coreana e cubana, acabaram por revelar as limitações do projeto de domesticação do mercado, especialmente frente ao mundo globalizado, no qual o Estado como agente econômico exclusivo se mostra incipiente.

No fim das contas a igualdade entre os populares é miserável frente aos bem sucedidos capitalistas, com os quais tais sociedades não puderam e nem poderão prescindir de relações de mercado em uma lógica capitalista.

Também pensando até mesmo dentro da própria sociedade a situação não é boa pois, não seria a igualdade absoluta um tipo de injustiça também? Por qual meio um jovem casal pode buscar garantir condições melhores para seus filhos enquanto vêem a sociedade toda estagnada sem garantia de poder suster todo o sistema nos passos adiante? Por qual meio uma grande ideia de negócio pode acontecer quando o jovem que a teve está sendo preparado para operar máquinas na fábrica local que por decisão do governo central é o meio de produção quase exclusivo de sua região? O que acontecem com os sonhos individuais nesse cenário em que alguém já definiu as possibilidades previamente?

– Terceira Via (social-democracia de centro, caminho do meio, democracia)

Justamente para superar as deficiências desses dois modelos no mundo contemporâneo que Anthony Giddens propõe o que ele chama de Terceira Via e outros estudiosos de caminho do meio ou de centro. Precisamos ter propostas novas para os principais dilemas da sociedade.

– – Dilema da Globalização vs Controle Local
Em um mundo cada vez mais globalizado, onde a internet não vê mais fronteiras ou distâncias, mundo este no qual é possível extrair matérias primas em um continente, industrializar em outro e vender em todos, de forma muito mais competitiva do que se fazia até alguns anos atrás, é comparável ao aprisionamento imaginar um povo todo restrito à suas fronteiras e nos casos que existe arixamento com os fronteiriços é um fundamentalismo bárbaro e primitivo que estaríamos incitando. Somos todos humanos, estamos no mesmo planeta, quando vamos construir as pontes para que vivamos plenamente dessa forma?

– – Dilema do Individualismo vs Coletivismo
Vivemos no coletivismo durante milênios na Europa e Oriente feudais e tribais, nas Américas e África tribais, e no médio oriente dos xeques, califados e tribos, nesse contexto por mais que houvesse alguma propriedade privada ela era decorrente de um poder concessor (igreja, senhorio local, monarca, chefe tribal) e no geral os recursos existentes serviam para a subsistência de toda a população local. Nesse contexto a liberdade individual também é limitada pelo poder central, que não a concede ou o faz com enormes limitações, pois existe um entendimento de que o individualismo é egoísta, perigoso e prejudicial para o grupo.

Mas a Revolução Francesa vem de encontro a esses paradigmas com forca e guilhotina para que o individualismo prevalecesse com aval e proteção do Estado (principal ou única responsabilidade deste ente), desde então esse é o paradigma predominante no mundo todo, as pessoas experimentam liberdade, propriedade, possibilidade de buscar uma vida melhor para si e seus entes queridos, e isso move-nos a buscar cada vez mais, exceto quando os problemas econômicos ou militares surgem, quando então abrimos mão dessas valiosas conquistas para logo na frente poder retomar.

Mas e aqueles que não conseguiram vencer ainda, ou nunca conseguirão nesse sistema, experimentam alguma dose dessa liberdade? Que discurso de outro planeta é esse nos ouvidos dos miseráveis que mantivemos ou que geramos? Novamente, somos todos humanos e precisamos entender no próximo passo como sociedade, que os direitos necessariamente devem pressupor responsabilidades, uma sociedade que proponha a liberdade individual deve também ser uma sociedade que entenda a necessidade de estar organizada de modo solidário, para que não hajam desamparados no meio da corrida para vencer na vida.

– – Dilema Estado vs Sociedade Civil
O Estado maquiavélico todo poderoso é uma figura assustadora e em vários momentos de nossa história humana nos encontramos diante de Estados cruéis, perversos, ou geradores de miséria simplesmente por incapacidade de entregar o que prometeram. Por outro lado a sociedade civil organizada em associações, empresas, cooperativas, movimentos políticos, condomínios, causas, na maior parte não detém os poderes e recursos do Estado para assegurar a justiça social. O novo modelo de Estado proposto não pode ser mínimo e nem gerente central, mas deve ser um agente de integração, dispondo em conjunto com a sociedade organizada os meios de transformação econômica e social, os meios para garantir o amparo amplo, os meios para possibilitar novas estratégias para alcançar os objetivos da nossa era conectada, tecnológica, bem intencionada, como resposta à falida dicotomia esquerda vs direita.

– Considerações Finais

A resposta está em dizer não para a esquerda e sua regulamentação econômica selvagem com anarquia moral e em dizer não para a direita em anarquia econômica e demasiado controle moral, para então buscar no equilíbrio as novas diretrizes. Liberdade com solidariedade, globalização com sustentabilidade, um cenário onde os freios não impossibilitem as escolhas, enquanto o dinamismo não impossibilite a responsabilidade necessária.

Sob essas bases conversaram Tony Blair (ex-primeiro ministro britânico), Bill Clinton (ex-presidente dos EUA) e Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente do Brasil) em 1998, visando entender e estabelecer as premissas justas de politicas e econômica desse novo mundo globalizado.

Assim como eles você leitor consegue acreditar que a meritocracia preponderante pode não excluir a possibilidade de garantir no mínimo o que a sociedade entender como dignidade humana? Nossa sociedade não pode agir como se humanos miseráveis fossem invisíveis, negando-lhes a condição humano. Toda conquista pressupõe derrotados, qual o papel que os vencedores individualistas devem ter para com os derrotados no caminho? A produção em escala mundial que pode atender as necessidade de 7bi de pessoas tem qual papel frente ao planeta com recursos esgotáveis?

Ao pensar do modo equilibrado proposto pela terceira via, você leitor consegue ver que a justiça social está no meio termo entre a igualdade e a individualidade, da mesma forma que a coragem está no meio termo entre o medo e a temerariedade? Assim também está a terceira via, na justa medida de meio termo e equilíbrio entre o socialismo estatal e o liberalismo conservador.

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Um comentário em “Entendendo o que é Terceira Via

  1. […] Assim como escrevi quanto ao partido Rede, entendo que o Partido Novo traz uma nova forma de ver a política e certamente isso irá enriquecer o debate político, mas temo pelas consequências da aplicação plena de seu ideário. Da mesma forma como as ideias de esquerda fracassaram e fracassam pelo mundo todo, as ideias liberais também falharam, por mais importante que seja levar em conta a visão tanto de um lado com do outro, no final das contas prefiro um caminho do meio, como o proposto pelo Movimento Internacional da Terceira Via. […]

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